Aumento do consumo de energia de Itaipu pelo Paraguai deve pressionar preços no Brasil, diz Itaú BBA
O aumento do consumo de energia pelo Paraguai de Itaipu deve pressionar os preços no Brasil, especialmente durante os horários de pico.
A demanda paraguaia de energia deve crescer entre 12% e 18% ao ano até 2025, impactando a oferta disponível para o Brasil.
Distribuidoras brasileiras correm risco de ficarem subcontratadas em 2027, caso o consumo paraguaio ultrapasse as cotas estabelecidas.
SÃO PAULO, 4 Nov (Reuters) – O aumento do consumo pelo Paraguai da energia gerada pela usina hidrelétrica de Itaipu deve pressionar os preços da energia no Brasil, principalmente ao diminuir a oferta disponível para o sistema elétrico brasileiro no fim da tarde, quando a geração hidrelétrica se torna mais valiosa para atender à demanda local, segundo um relatório do Itaú BBA.
Esse cenário tende a aumentar a geração termelétrica durante o pico do fim de tarde, favorecendo empresas como a Eneva, e beneficiar os geradores hidrelétricos que escolhem deixar energia descontratada em seus portfólios para aproveitar janelas de preços altos, como Axia, Copel, Auren e Engie, disse o banco.
Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm cada um direito a metade da energia gerada pela hidrelétrica binacional de 14 gigawatts (GW), sendo que a parcela não utilizada pode ser adquirida pelo outro lado.
Historicamente, o Brasil usa toda sua parcela de Itaipu e ainda compra o excedente do Paraguai, que tem um consumo de energia menor. Mas esse cenário vem mudando nos últimos anos, com a carga do lado paraguaio aumentando, impulsionada por atividades como mineração de criptomoedas e data centers.
A demanda de energia do Paraguai avançou entre 12% e 18% ao ano de 2023 a 2025, atingindo uma carga média de 3,3 GW em 2025, ante um crescimento médio anual de 12% desde 2021, de acordo com o BBA. Quase toda a demanda é atendida por Itaipu, embora essa participação possa oscilar, a depender da estratégia comercial e operacional da Ande, estatal de energia do Paraguai.
Um dos problemas desse aumento de carga no país vizinho é que o pico por lá ocorre às 18h, mesmo horário do observado no Brasil, observou o banco.
"Entre abril e setembro, o pico de carga do Paraguai ocorre às 18h, coincidindo com o pico de carga líquida do SIN (sistema brasileiro). A demanda da Ande nesse horário deverá crescer de 4,0 GW em 2026 para 4,7 GW em 2029, reduzindo a energia de Itaipu disponível para o Brasil justamente no momento em que o sistema mais necessita dela", escrevem Fillipe Andrade, Lucas Guimarães e Lorena Fernandez.
Como resultado dessa perda de oferta hidrelétrica, pelos cálculos do BBA, a geração termelétrica aumentaria perto de 11% ao ano no período 2027-29, enquanto o preço médio marginal subiria de R$40 a R$59 por megawatt-hora (MWh).
Segundo o banco, o efeito do maior consumo paraguaio de Itaipu sobre os preços no Brasil deve se tornar mais evidente a partir de 2027, quando a programação mensal de operação do sistema elétrico brasileiro, definida pelo ONS, passará a contar com uma nova metodologia para projetar a carga demandada pela Ande.
A regra atual de previsão não tem acompanhado a aceleração da demanda de energia paraguaia nos últimos anos.
IMPACTO TAMBÉM PARA DISTRIBUIDORAS
Além de impacto nos preços, o maior consumo de energia pelo Paraguai também deve afetar o portfólio de contratos das distribuidoras brasileiras que são cotistas de Itaipu, isto é, compram energia da usina para atender sua base de consumidores.
Caso a Ande continue a consumir mais energia de Itaipu do que foi abatido das cotas brasileiras, as distribuidoras brasileiras correm risco de ficar subcontratadas — terem menos energia contratada que o necessário — em 2027, tendo que recorrer a compras de energia no mercado de curto prazo.
O diagnóstico é da Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee), que enviou carta sobre o assunto à agência reguladora Aneel na semana passada.
A entidade pediu que a Aneel e o governo definam de forma "tempestiva" o montante de energia da Ande a ser abatido das cotas de Itaipu para 2027. Caso haja uma variação relevante ante 2026, a Abradee pediu que as distribuidoras possam retificar os volumes de suas necessidades de energia antes de um leilão de compra do insumo que será realizado em 13 de novembro.
(Por Letícia Fucuchima; edição de Marta Nogueira)
Fonte: Portal do Holanda
