Especialistas indígenas preservam abelhas nativas sem ferrão em SP e fazem alerta

Especialistas indígenas preservam abelhas nativas sem ferrão em SP e fazem alerta

Marcio Karai, da comunidade Guarani, cuida de abelhas nativas Mirim em São Paulo, alertando sobre a escassez dessas espécies devido a mudanças ecológicas.

A meliponicultura, prática indígena de manejo de abelhas sem ferrão, é vital para a polinização e a preservação cultural, embora produza menos mel que a apicultura convencional.

Karai destaca a importância espiritual das abelhas em rituais Guarani, temendo que as novas gerações percam o interesse em sua conservação em busca de empregos mais lucrativos.

(Ensaio fotográfico: https://bit.ly/4fHWRRt)

SÃO PAULO, 4 Ago (Reuters) – Marcio Karai acomoda-se sobre um tronco de árvore perto de sua casa, nos arredores de São Paulo, e posiciona um pequeno cubo à sua frente.

A caixa de madeira servirá como nova colmeia para uma colônia de abelhas nativas Mirim, uma espécie que ele e sua comunidade indígena Guarani cuidam há muito tempo.

“Os anciões estão muito preocupados com o desaparecimento dessas espécies nativas que eles sempre manusearam, que eles sempre tiveram à disposição e hoje está cada vez mais escassa”, disse Karai.

Embora as abelhas Mirim e outras espécies que Karai cuida não sejam classificadas como ameaçadas de extinção, ele se preocupa com a forma como as mudanças nos ecossistemas possam afetá-las e a outras espécies nativas no futuro.

Em muitos lugares, polinizadores silvestres como as abelhas estão ameaçados de extinção, de acordo com uma importante avaliação intergovernamental sobre biodiversidade realizada em 2016. Mudanças climáticas, desmatamento e pesticidas são as principais causas.

Os polinizadores animais são essenciais para a reprodução de 90% das plantas com flores silvestres em todo o mundo, enquanto 75% das culturas alimentares humanas dependem, pelo menos em parte, da polinização.

O manejo de abelhas sem ferrão, conhecido como meliponicultura, difere da apicultura praticada em lugares como a Europa e a América do Norte.

A meliponicultura produz quantidades menores de mel, muitas vezes mais valorizado.

As abelhas também são muito menores do que espécies como a abelha-melífera-ocidental, que usa seu ferrão para proteger agressivamente suas colmeias.

Cientistas identificaram cerca de 300 espécies de abelhas sem ferrão no Brasil, mas é possível que outras tenham sido extintas devido aos danos ecológicos causados pela expansão agrícola, disse Osmar Malaspina, coordenador de um grupo de pesquisa em ecotoxicologia e conservação de abelhas da Universidade Estadual Paulista.

Na Terra Indígena Jaraguá — situada na Mata Atlântica, embora cada vez mais engolida pelos subúrbios de São Paulo —, Karai, de 42 anos, transfere membros de uma colônia de abelhas para uma nova colmeia. A manobra faz parte de suas tarefas diárias de cuidar de 13 variedades diferentes de abelhas nativas, incluindo espécies como as abelhas Mirim e as abelhas Jataí.

Ao abrir a colmeia atual para transferir alguns dos insetos para sua nova morada, pequenas abelhas saem em revoada, formando uma nuvem frenética, porém silenciosa. Ele seleciona, lenta e metodicamente, elementos da paisagem peculiar da primeira colmeia — material das câmaras de ovos e dos sacos de mel protuberantes, com feromônios para atrair os insetos. Em seguida, preenche o pequeno cubo com material suficiente para garantir a sobrevivência das abelhas transplantadas.

Sua comunidade, disse Karai, se considera “os guardiões dessas espécies tão importantes para o nosso ecossistema, para a nossa vida e para a futura geração”.

O mel e a cera produzidos pelas abelhas sem ferrão desempenham papéis importantes nas cerimônias religiosas da comunidade.

Na escuridão solene de um ritual Guarani, um círculo de velas de cera de abelha — cada uma representando uma pessoa — cintila em conjunto e arde como um todo no altar cerimonial da comunidade.

As velas são feitas por mulheres Guarani, afirma Karai, explicando que o mundo espiritual é fortalecido por meio da espiritualidade feminina.

“É através do canto que a voz do povo Guarani chega ao (nosso deus) Nhanderu. É a vela e a fumaça da cera sendo queimada levando esse canto… subindo ao céu de Nhanderu”, disse Karai.

É por isso que Karai aprendeu com seu pai e seu avô a arte de cuidar das abelhas sem ferrão, segundo ele.

Embora espere que seu filho mais velho siga seus passos, Karai teme que as futuras gerações percam o interesse em cuidar das abelhas sem ferrão e optem, em vez disso, por empregos com salários mais altos.

De todas as abelhas nativas que ele protege, Karai se identifica mais com a espécie Jataí. A espécie continua a prosperar apesar das muitas ameaças que enfrenta, graças a uma forte proteção espiritual que anda de mãos dadas com o trabalho de conservação dos Guarani, disse Karai.

“Por mais que o não-indígena tenha tentado nos eliminar, a gente resistiu", declarou. "Entendemos que a Jataí vem também nesse mesmo processo de resistência.”

(Reportagem de Amanda Perobelli e Lais Morais)


Fonte: Portal do Holanda

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