Israelenses batem recorde de participação eleitoral para julgar Netanyahu em tempo de guerra
Os israelenses registraram uma participação eleitoral de 74,3%, a mais alta desde 1988, em uma eleição crucial para o futuro de Benjamin Netanyahu.
Netanyahu, que busca manter seu cargo, enfrenta Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior, em uma disputa acirrada marcada por divisões políticas e sociais.
A participação recorde de eleitores árabes, cerca de 69%, pode influenciar a formação de um governo alternativo, desafiando a coalizão de direita de Netanyahu.
Por Steven Scheer e Alexander Cornwell
JERUSALÉM, 27 Out (Reuters) – Os israelenses compareceram às urnas nesta terça-feira em número recorde para julgar em tempo de guerra o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, no que alguns descreveram como a eleição de maior importância na história do país.
Longas filas se formaram do lado de fora dos locais de votação para a primeira eleição desde os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, enquanto os eleitores lidavam com o trauma do dia mais sangrento de Israel e das guerras que se seguiram em Gaza, no Líbano e no Irã.
A Comissão Eleitoral Central informou que a participação eleitoral ficou em 74,3%, a taxa mais alta para esta fase final da votação desde 1988. As urnas fechariam às 22h em Israel (17h no horário de Brasilia).
As políticas da coalizão de direita de Netanyahu têm gerado divisões no país e aprofundado o isolamento internacional de Israel. Mas ele se apresenta como o único líder com coragem para enfrentar os inimigos de Israel.
NETANYAHU, O SOBREVIVENTE, CONTRA EISENKOT, O GENERAL
Netanyahu, o líder mais longevo de Israel, com 19 anos no cargo, é um sobrevivente político sem igual, e sua política nacionalista está cada vez mais arraigada. O sistema fragmentado de Israel dificulta que um conjunto de oponentes consiga derrubar sua coalizão de partidos de direita, extrema-direita e ultraortodoxos.
Seu principal rival, Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e defensor de uma linha dura em questões de segurança, pretende destituí-lo com o apoio de partidos de direita e de centro, bem como do que resta de uma esquerda cada vez mais marginalizada. As pesquisas de opinião mostram uma disputa acirrada, sem garantir a nenhum dos dois um caminho fácil para o poder.
Os analistas hesitaram em prever qual seria o impacto que a alta participação eleitoral poderia ter no resultado. Um aumento nos votos de israelenses de ascendência palestina poderia limitar os ganhos da coalizão de direita de Netanyahu e tornar mais provável que qualquer governo formado para destituí-lo precisasse do apoio de partidos árabes — uma perspectiva controversa entre os líderes dos partidos judeus.
Netanyahu exortou seus apoiadores a comparecerem às urnas para contrabalançar a alta participação entre seus oponentes da esquerda e dos árabes israelenses. “Todos vocês precisam ir em massa às urnas”, disse ele. “Este é um momento decisivo.”
Osama Saadi, político palestino e líder da Lista Conjunta, uma chapa unificada que reúne vários partidos de maioria árabe, disse que houve uma participação “histórica” dos eleitores palestinos com cidadania israelense nas eleições.
Os cidadãos palestinos de Israel tiveram uma taxa de comparecimento às urnas de cerca de 69%, enquanto a participação árabe total nas últimas eleições foi de aproximadamente 56%, disse Saadi.
“Acho que essas eleições são as mais importantes de todas as que já presenciei”, disse Ruth Epstein, uma eleitora de 81 anos de longa data da esquerda em Ramat Gan, perto de Tel Aviv, que votou nos Democratas, da oposição.
Netanyahu fez campanha com o apoio do presidente dos EUA, Donald Trump, seu aliado na guerra contra o Irã, que afirmou que eles deveriam “concluir o trabalho”.
Se nem Netanyahu nem Eisenkot conseguirem formar uma coalizão de governo no Parlamento de 120 cadeiras, Netanyahu poderá permanecer como interino até que seja realizada outra eleição.
Seus oponentes conseguiram tirar-lhe o cargo de primeiro-ministro apenas uma vez desde 2009, e isso exigiu quatro eleições sem resultado decisivo em dois anos. Dezoito meses depois, ele estava de volta.
EISENKOT VÊ UM “NOVO ESPÍRITO”
Para muitos dos oponentes de Netanyahu, a eleição gira em torno da responsabilização pelas falhas de segurança de 7 de outubro, o dia mais sangrento de Israel. Grupos da oposição prometeram realizar uma investigação nacional, à qual o governo de Netanyahu tem se oposto.
“Estou convencido de que, até o final do dia de hoje, veremos uma mudança — um novo espírito para o Estado de Israel — que servirá como uma correção para os últimos três anos e para aquele dia terrível”, disse Eisenkot durante uma visita ao kibutz Nir Oz, no sul de Israel, alvo dos ataques de 7 de outubro.
Ele foi às urnas com Gadi Mozes, uma das 251 pessoas sequestradas pelo Hamas e levadas para Gaza durante o ataque que matou 1.200 pessoas.
Eisenkot afirma que a resposta de Israel — uma guerra que, segundo as autoridades de saúde, matou mais de 74 mil palestinos — foi um fracasso, pois o Hamas continua no poder. Ele reiterou seu compromisso de desmantelar ou destruir o poder militar e governamental do Hamas em Gaza dentro de 18 meses após a formação do governo.
Itamar Ben-Gvir, líder de um partido de extrema-direita na coalizão de Netanyahu, votou no assentamento de Kiryat Arba, na Cisjordânia ocupada, na manhã desta terça-feira. Ele previu que Netanyahu voltaria como primeiro-ministro e que seu próprio partido serviria como âncora de direita do governo.
PARTICIPAÇÃO DOS ÁRABES PODE SER FUNDAMENTAL
Ahmed Tibi, candidato de um partido árabe, afirmou que uma participação recorde da minoria árabe de Israel “abriria caminho para um governo alternativo e mudaria a grave realidade”.
Eisenkot descartou uma aliança com partidos árabes, embora, em alguns cenários, ele pudesse contar com eles para sustentar um governo minoritário que mantenha Netanyahu fora do poder.
Netanyahu tem repetidamente descrito os árabes israelenses, que representam um quinto da população, como uma ameaça, com um discurso que, segundo seus oponentes, beira o racismo. Ele postou uma imagem no X nesta terça-feira mostrando uma fila de mulheres árabes, usando niqabs ou com expressões de raiva, supostamente em uma seção eleitoral. De acordo com o site de verificação da OpenAI, a imagem foi criada usando suas ferramentas de IA.
Carros com a bandeira do partido Likud, de Netanyahu, percorreram as ruas de Jerusalém com alto-falantes tocando a chamada islâmica para a oração e exortando: “Saiam de suas casas agora! Os árabes estão votando!”
Como quase todos os líderes de partidos judeus em Israel, Eisenkot se opõe à solução de dois Estados, que outrora serviu de base para décadas de negociações de paz com os palestinos.
Mas ele tem criticado a violência dos colonos judeus contra os palestinos na Cisjordânia ocupada por Israel, que aumentou desde 2023 e prejudicou as relações de Israel com os países ocidentais. Além disso, ele se opõe aos parceiros de coalizão de extrem-direita de Netanyahu.
(Reportagem adicional de Maayan Lubell e Rami Ayyub, em Jerusalém, e de Lili Bayer, em Tel Aviv; Redação: Tom Perry;)
Fonte: Portal do Holanda
