Neutrinos: partículas que renderam Nobel de Física em 2026 são estudadas no Observatório Nacional. Entenda

Neutrinos: partículas que renderam Nobel de Física em 2026 são estudadas no Observatório Nacional. Entenda

Bilhões de partículas invisíveis atravessam a Terra a cada segundo sem deixar rastros. São os neutrinos , apelidados de “partículas fantasma ” por quase não interagirem com a matéria. Apesar de tão discretos, eles carregam segredos fundamentais sobre o funcionamento do Cosmos, e por isso a descoberta de um novo método de detecção destas partículas rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2026 ao físico belga Francis Halzen e segue impulsionando fronteiras na ciência mundial.

Localizado no Polo Sul, o IceCube usa 1 quilômetro cúbico de gelo antártico para capturar neutrinos de alta energia vindos do espaço profundo — feito que rendeu a Francis Halzen o Prêmio Nobel de Física. Fotos: IceCube.

No Observatório Nacional (ON/MCTI), o estudo dos neutrinos na cosmologia é um dos focos do grupo de Cosmologia e Astropartículas. Recentemente, o Dr. Gabriel Rodrigues defendeu sua tese de doutorado, intitulada “ Massive Neutrinos and Cosmology ” , sob a orientação do Prof. Jailson Alcaniz; nela, investiga o impacto dessas partículas subatômicas na estrutura de grande escala do Universo. “É bastante significativo que este seja o quinto Nobel de Física diretamente associado aos neutrinos. Ao longo das últimas décadas, essas partículas passaram de algo extremamente difícil de detectar para ocupar um papel fundamental tanto na compreensão das  propriedades mais básicas da matéria quanto na investigação da própria evolução do Universo. O prêmio deste ano mostra justamente essa evolução e reforça o papel cada vez mais importante dos neutrinos na física fundamental e na cosmologia”, afirmou o Dr. Gabriel.

Estes foram os outros quatro Prêmios Nobel relacionados aos neutrinos:

1988 – Leon Lederman , Melvin Schwartz e Jack Steinberger foram premiados pela criação do método de feixes de neutrinos e pela descoberta do neutrino do múon.

1995 – Frederick Reines recebeu metade do prêmio pela primeira detecção experimental do neutrino.

2002 – Raymond Davis Jr. e Masatoshi Koshiba foram reconhecidos pela detecção de neutrinos cósmicos, provenientes do Sol e de supernovas.

2015 – Takaaki Kajita e Arthur B. McDonald receberam o Nobel pela descoberta das oscilações de neutrinos, que demonstraram que essas partículas possuem massa.

Afinal, o que são os neutrinos?

Os neutrinos são partículas elementares indivisíveis, ou seja, não são formadas por nada menor. Eles são produzidos em reações nucleares, como as que acontecem no interior do Sol, no centro de supernovas (explosões de estrelas) e até em reatores nucleares na Terra.

Por não possuírem carga elétrica e interagirem de forma extremamente fraca com a matéria, conseguem atravessar planetas inteiros sem esbarrar em quase nada. Existem em três tipos ou “sabores” conhecidos: neutrino do elétron; neutrino do múon; e neutrino do tau

O IceCube e a revolução da Astronomia de Neutrinos

Durante décadas, detectar neutrinos de altíssima energia vindos do espaço distante parecia uma tarefa quase impossível devido à raridade com que eles interagem com a matéria. Para solucionar esse desafio, surgiu uma ideia revolucionária: utilizar o próprio gelo da Antártida como parte de um gigantesco detector natural.

Assim nasceu o IceCube Neutrino Observatory, um detector construído entre 1,5 km e 2,5 km de profundidade no gelo do Polo Sul. Idealizado e liderado pelo físico Francis Halzen, o vencedor do Nobel de Física de 2026, o IceCube monitora um quilômetro cúbico de gelo ultra-puro com milhares de sensores fotossensíveis.

Animação mostra todos os sinais registrados pelo detector IceCube em apenas 10 milissegundos. Como milhares de partículas atingem o gelo a cada segundo (a maioria vinda da nossa própria atmosfera), o desafio dos cientistas é filtrar esse “mar de dados” para encontrar os sinais raros e valiosos: os neutrinos de altíssima energia vindos do espaço profundo. Fonte: IceCube

Ao interagir raramente com o gelo, os neutrinos geram traços sutis de luz (radiação Cherenkov) captados pelos sensores. Isso permitiu ao IceCube registrar, de forma inédita, neutrinos de alta energia de origem astrofísica, originados em eventos cósmicos violentos fora da nossa galáxia, como buracos negros supermassivos e blazares. A conquista abriu uma janela totalmente nova para observar o Universo, inaugurando a era da astronomia de neutrinos de ultra-alta energia.

Sensores do telescópio IceCube no gelo da Antártida captam os flashes de luz gerados pela passagem de uma partícula de alta energia. A cor vermelha indica a luz que atinge os detectores quase instantaneamente, enquanto a azul mostra a luz que sofreu desvios e demorou mais a chegar. Fonte: IceCube

Fronteiras da pesquisa no ON

Descobrir que os neutrinos têm massa abriu um vasto campo de investigação. Saber o valor exato dessa massa e como essas partículas influenciam a distribuição de matéria no Universo primordial são perguntas cruciais para entender desde o microcosmo das partículas até a escala cosmológica.

É nesse cenário que se destacam as pesquisas conduzidas no ON, ajudando a decifrar o papel dessas misteriosas partículas na construção do Universo. O Prof. Jailson Alcaniz, orientador do Dr. Gabriel Rodrigues no doutorado no ON sobre neutrinos, também ressaltou a importância do Nobel de Física deste ano ter ido para um trabalho sobre o tema: “O Prêmio Nobel deste ano evidencia como os neutrinos se tornaram uma ferramenta das mais importantes para investigarmos o Universo. Por interagirem muito fracamente com a matéria, essas partículas podem carregar informações de regiões e fenômenos extremos que muitas vezes são inacessíveis por outros meios de observação. Mas a importância dos neutrinos vai muito além da astrofísica de altas energias. Na cosmologia, eles deixam assinaturas na formação das estruturas em grande escala do Universo. No ON, nosso grupo tem explorado justamente essa conexão, combinando modelos teóricos e dados cosmológicos para estabelecer vínculos sobre propriedades fundamentais dos neutrinos, em particular sua massa. É um exemplo muito interessante de como observações do Universo em escalas cosmológicas podem nos ajudar a compreender a física de partículas em escalas microscópicas”.


Fonte: Agência Gov / Governo Federal

Leia a matéria original

Avatar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *